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Aprendi a história nordestina na cartilha poética do sertão.

Aprendi na cabana improvisada,
que o acento é a pedra cor-de-chumbo,
o armador é um gancho de mofumbo
e o cabide a forquilha da latada;
a copeira, uma vara descascada
e a mala de roupa é um caixão;
e três pedras num canto é o fogão,
e a gamela de barro é a piscina.
Aprendi a história nordestina
na cartilha poética do sertão.

***

Trabalhei, senti dor, fiquei aflito
vendo a terra tremer ensolarada,
e a cigarra apitando detonada
no cenário da seca aonde habito.
Me tornei cantador, ouvindo o grito
da corneta matuta do carão,
o piado da gaita do cancão,
e o prelúdio do galo-de-campina.
Aprendi a história nordestina
na cartilha poética do sertão.

***

Se nascer no sertão foi mais divino,
onde o pai conservava as tradições,
e avisava com doze foguetões
se nascesse do sexo masculino;
ritual puramente nordestino
avisar através de foguetão,
mas o sexo mudava a condição:
eram seis, se nascesse uma menina.
Aprendi a história nordestina
na cartilha poética do sertão.

***

Aprendi na escola da aranha,
tecelã sem ter bilro e almofada,
faz o teto de renda desenhada,
ninguém sabe, por isso, o qu’ela ganha;
engenheira arquiteta da montanha
faz a rede tecida de cordão;
sem ter fuso enganchado em sua mão,
sem tear, sem ter máquina e sem bobina.
Aprendi a história nordestina
na cartilha poética do sertão.

***

Aprendi no nordeste da carência,
chove um ano e, sem chuva, passam quatro:
o sertão, sem querer, vira teatro
do elenco das frentes de emergência.
Os humildes da lei da penitência
sobrevivem na triste sequidão,
sem ouvir a palavra do trovão
e sem visita dum pingo de neblina.
Aprendi a história nordestina
na cartilha poética do sertão.

***

Aprendi no sertão fora de norma,
que tem pouco prazer, mas sobra mágoa;
tem chão fértil, mas tá faltando água;
sobra terra sem atos de reforma.
Humilhado e sofrido, se conforma
com promessas de haver transposição.
Vai passando esse filme de ilusão,
entra século, sai século e não termina.
Aprendi a história nordestina
na cartilha poética do sertão.

***

Me criei no sertão, vendo o projeto
da formiga, engenheira que Deus cria;
João-de-Barro fazendo a moradia
sem tijolo, sem prumo e sem concreto;
por ser mestre, servente e arquiteto,
faz a planta da sua construção;
mostra a casa que faz, a planta não,
porque faz em segredo e Deus assina.
Aprendi a história nordestina
na cartilha poética do sertão.

***

Aprendi no sertão pobre e disposto,
coroado de seca, fome e peste;
por ser filho legítimo do nordeste,
afilhado da dor, pai do desgosto,
traz as marcas de luta no seu rosto
soterrado no mau da precisão,
incluído na lei da repressão
e revoltado com quem lhe discrimina.
Aprendi a história nordestina
na cartilha poética do sertão.

***

Aprendi no sertão que me consola,
onde existem talentos inegáveis;
onde os gênios sagrados são notáveis,
o repente é a base da escola.
Se sustenta a potência da viola
como marco de grande tradição:
grandes mestres fiéis da profissão
da cultura real que predomina.
Aprendi a história nordestina
na cartilha poética do sertão.

 

Geraldo Alves


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