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Ao ver, da
janela de meu quarto, crianças correndo, brincando, nadando na
piscina despreocupadamente, retroagi à minha infância e, com
saudades, lembrei-me daquele período da vida que era estouvado e
não levava as coisas a serio; tudo era motivo para brincadeiras,
criancices, risos marotos e indagações. Morávamos em uma casa
com um grande quintal, numa rua sem calçamento e ora brincávamos
entre as arvores frutíferas, ora na rua pulando amarelinha,
jogando bola de gude ou bola de meia, enquanto as meninas e os
meninos mais novos brincavam de roda, cantando “ciranda
cirandinha” e “atirei o pau no gato” repetitivamente. Eu e os
amigos de mesma idade estudávamos na parte da manhã e depois do
almoço sentávamos no meio fio da calçada para conversar sobre o
que havíamos descoberto na escola, em casa ou ouvindo conversas
de gente grande. Cada um fazia questão de falar mais para
mostrar que estava sabendo “das coisas”. Quando estava dentro de
casa ou na casa de meus avós sentia a satisfação deles com minha
presença e a de meus irmãos e primos, éramos a alegria da casa
embora fossemos responsáveis por bagunças, desordens em geral e
sujeiras por todo canto. Naqueles tempos não havia televisão nem
jogos eletrônicos e piscina, só no clube nos fins de semana. O
mundo evoluiu e algumas crianças ganharam bicicletas de freio no
guidom enquanto outras tinham a alegria de ganhar um jogo de
raquetes com bola de ping-pong ou até uma bola de futebol de
couro. No mês de junho a farra era grande, pois as avós
preparavam canjiquinha de milho verde, pé de moleque, paçoca,
milho cozido, bolo de milho, doces de abóbora e de batata doce e
em frente às casas eram armadas fogueiras que ardiam à noite
inteira e onde os pais assavam batata doce e espigas de milho
verde. O Natal era a data mais esperada para os meninos ganharem
bolas, brinquedos de fricção ou de corda e as meninas ganhavam
bonecas de todos os tipos, casinhas de boneca, cozinhas e móveis
em miniatura, alem de estojos de manicure, de beleza e de
apetrechos para brincar de mãe. No dia seguinte íamos mostrar,
na calçada, nossas conquistas e brincar com as novidades em
harmonia, alegria, contentamento e envaidecidos. Quando vou ao
playground com meus netos, eles estão em meu apartamento usando
o computador ou vou a pracinha com eles vejo novos brinquedos,
novas formas de lazer, mas vejo o mesmo espírito infantil, as
mesmas bagunças, as mesmas desordens e sujeiras, o mesmo
estouvamento, o mesmo riso maroto e as conversas de pé de
ouvido, afinal são crianças, são a alegria da casa, nos
proporcionam o equilíbrio emocional. Eu digo a cada um dos netos
que o que eles fazem é nada mais nada menos do que “ser
criança”. |