Lá pelos meus
cinco anos minha saudosa mãe me banhava ,
vestia-me , com gravata borboleta , e sentava-me
em uma cadeira de palha e de balanço , à beira
da calçada para esperar meu pai.Enquanto
esperava , passava o bonde e os moleques mais
velhos , colocavam uma meia cheia de vidro , nos
trilhos , para virar pó de cerol para as arraias
ou pipas.
Passava o
vendedor de picolé , caixa de madeira na cabeça
, cantando : Doce gelado , sapotí côco babão ,
namorei uma menina neste mesmo quarteirão , ela
queria casar comigo mas eu não queria não ,
porque eu era um sorveteiro e ela chofer de
fogão , doce gelado quem vai querer ?
A seguir passava
um vendedor de cabides : Cruzeta tá na hora ,
quem quer ?
E a água ? Água
da pirocaia , zuca aciole , puxada por um
jumento em tanque de madeira.
Às quintas -
feiras , era o dia do engraxate , Sr. Manel.Sapatos
, bolsas e cintos , expostos no terraço para
engraxar.
E o leite ? Seis
horas da matina , chegava o vendedor e minha mãe
comprava em garrafa , rigorosamente ,de um
litro.
Lazer ? Jogo de
triângulo , bola de meia , jogo de bila e pau -
de - merda.
Doenças ? Bicho -
de - pé , piolho e carrapato.
Bandidos ?
Ladrões - de -galinha que Getúlio Vargas
embarcava em um B-25 e mandava soltar no oceano.
Lembro-me que ,
àquela época, só havia um baitola no Ceará , mas
não existia movimento ou passeata Gay financiada
pelo Ministro da Cultura.
Não me lembro de
políticos corruptos ou de 35 Ministérios!
Militar
? Era sinônimo de heroi , honestidade e
respeito.
Só haviam três
carreiras : Banco do Brasil , Padre e Militar.
Separação de
casais , nem pensar ! Se o Ronaldinho e
Cicarelli fossem nascidos , seriam fuzilados.
Ia me esquecendo
! Meu pai chegou em uma camioneta do Governo na
qual as laterais eram de madeira.
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